


Matéria extraída da versão online:
Faverock, um movimento embrionário
O rock nunca foi considerado um morador das favelas brasileiras, mas o Faverock desmentiu isso, desde que a pauleira dos solos de guitarra e das baterias ocorre em Belo Horizonte
É som de preto, de favelado e, longe do olho novidadeiro e voraz da mídia, que ajudou a batida funkeira carioca a se tornar o funk de boutique ou funk chique, invadindo as pistas de dança cheias de cachorras e tigrões de classe média, o Faverock ainda não conseguiu ultrapassar com força os morros de Belo Horizonte (MG). Porém, o movimento musical prova que a favela não é a casa só do samba, rap e outros ritmos que descem as ladeiras para conquistar o asfalto. Também é o endereço de um rock refinado, que não mistura só os ingredientes pão de queijo mineiro, que tornaram as Minas Gerais uma referência da cena roqueira nacional, mas é um caldeirão de bandas independentes.
O rock nunca foi considerado um morador das favelas brasileiras, mas o Faverock desmentiu isso, desde que a pauleira dos solos de guitarra e das baterias comeu solta no Aglomerado da Serra, em 1999, quando os moradores organizaram o primeiro festival de música.
Somente uma região de contrastes abissais, como a da Serra, bairro da região Centro Sul de BH, poderia ser embrionária do movimento, onde empresas de grande porte, escolas e clubes para um público vip, dividem a fronteira com a maior favela da cidade. O Aglomerado da Serra é formado por seis comunidades, reunindo uma população de 200 mil habitantes.
Ao contrário de outras fronteiras no País entre os bairros de classe média e a periferia, perímetro com movimento intenso da violência e do tráfico de drogas, o Faverock se instalou justamente nessa zona de características explosivas.
”O movimento nasceu com a idéia das bandas do Aglomerado, que não tinham espaço de apresentação. Os espaços da cidade não eram abertos aos novos grupos. As quatro bandas que criaram o Faverock realizaram o festival, com grande receptividade dos moradores do Aglomerado. Depois disso, grupos de outros bairros entraram. A sexta edição foi realizada junto com o Expresso Melodia, da Fundação Clóvis Salgado. O sétimo festival, em 2005, aconteceu com dificuldade. Hoje, nós estamos repensando o movimento”, conta Mariana Zande, 19 anos, estudante de Comunicação Social, moradora do bairro Serra.
Ao subir o morro, ela se tornou uma das líderes do movimento, além de produtora da banda Pelos de Cachorro, uma das maiores expressões do rock/favela, formado pelos músicos Heberte Almeida (baixo), Robert Frank (vocal/guitarra), Edson Pinheiro (guitarra) e Kim Gomes (guitarra).
Mariana lembra que o fascínio pelo rock do morro começou em um show que assistiu, se empolgando também com esse negócio de montar o palco entre o bairro e a favela. ”Quando decidi subir o morro não percebi nenhum preconceito. Pode até ter existido algum preconceito, mas não discriminação. Já ouvi comentários do tipo: ‘O que ela está fazendo aqui’. Porém, isso não significa ter sido discriminada porque eu abracei a idéia. Não fiz como alguns pesquisadores que, depois de encerrar o trabalho não voltam ao Aglomerado. Eu sou do morro. Participo da comunidade. Não tem motivo para ser alvo de discriminação”, afirma Mariana, que namora Robert, vocalista do Pelos de Cachorro.
Ela diz que o que diferencia o Faverock de outros movimentos da periferia é que não é panfletário, mas estritamente artístico. Algumas bandas buscam referências musicais no rock independente americano e britânico.
O músico Robert acredita que o Faverock vai além desse espaço de divulgação de bandas de favelas. ”O movimento é importante também porque sentimos que fazemos parte de algo, que ajudamos a construir”, afirma o rapaz, destacando que, principalmente no início, os grupos tiveram que superar dificuldades, como a falta de dinheiro para o transporte de equipamentos e a compra de instrumentos.
O músico acrescenta que uma das coisas que facilitou a organização das bandas foi os integrantes serem da favela, sendo conhecidos da comunidade. ”O fato de morarmos na comunidade, facilitou a organização dos shows, que no começo aconteciam nas ruas e praças. Como estávamos dentro da favela, tínhamos o controle da situação, podendo tocar em qualquer lugar. bastava montar a aparelhagem, não tendo medo de fiscalização”, completa Robert.
Diferente do que acontece no funk e rap, a violência, as drogas, a malandragem e a polícia foram afugentados das músicas, que falam de sentimentos universais, fazendo o povo do asfalto considerar cult, conhecer o trabalho de bandas como Cachorros e Distúrbio, In-Solidum, entre outras expressões do movimento, que oferece de rapcore ao hardcore, metal, entre outras vertentes do rock.
A educadora Márcia Pereira Guerra, mestre pela Escola de Música de Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), estudou o fenômeno em sua tese ”O Rock que vem do morro”. A pesquisadora analisou a banda Pelos de Cachorros. Márcia destaca que a localização do Aglomerado, um núcleo de favelas que faz fronteira com o asfalto, facilitou a subida do rock ao morro.
”Em BH, o rock é uma referência da classe média, com bandas como o Sepultura e o Skank. Dentro da cena underground o que acabou acontecendo é que, o fato do Aglomerado ficar próximo de bairros ricos, acredito na hipótese de uma influência sobre os moradores da favela, que começaram a alimentar o discurso: ‘porque só os brancos do asfalto podem fazer rock e nós somente rap e pagode. Apesar de não ter um discurso político nas letras das música é um movimento político porque os festivais acontecem na fronteira entre o bairro e a favela. É um recado para as pessoas ricas”, ressalta a educadora musical.
Márcia diz que esse discurso não é direto, mas transcorrem entre os jovens da comunidade, que escrevem músicas escorados em leituras do tipo Charles Baudelaire.
”Alguns morros de BH estão em guerra pelo comando do tráfico e algumas dessas letras falam do abandono, a melancolia, morte, mas nunca a palavra ‘favela’ aparece de forma direta. O movimento extrapolou os limites do Aglomerado, influenciando jovens de cidades vizinhas. O Faverock também serviu para que a cúpula buscasse outras coisas, como voltar a estudar. Entre os integrantes, hoje temos estudantes de Turismo, Jornalismo e Música”, avalia Márcia.
Para a estudante Mariana, o Faverock passa por um momento de transição, desde que parou no sétimo festival, em 2005, não conseguindo promover o novas edições do evento por falta de patrocínio.
”Temos que nos articular muito ainda. Queremos fazer reuniões com os integrantes do movimento e pensar o nosso objetivo. Na quinta edição do festival realizamos oficinas de música e de circo. Pensamos em voltar a investir nessas atividades e fazer do Faverock um meio de ajuda mútua entre as bandas, ensinando o pessoal a fazer até um melhor uso da internet para a divulgação do trabalho”, espera a estudante.
Ao contrário do manguebeat, movimento musical que surgiu no Recife (PE), na década de 90, misturando ritmos regionais com rock, rap e música eletrônica, e de manifestações da periferia como o funk carioca que emplacou até numa novela global, a mídia ainda não descobriu todo o potencial de mercado do Faverock.
”A gente não entende muito o porquê de ainda não termos conquistado esse espaço. A gente sabe porquê deveria ganhar esse lugar, já que temos boas bandas e rapazes que entendem de música e fazem trabalhos originais. São grupos que estão prontos para entrar na mídia. Acho que a relação da mídia com o que se produz na favela tem ligação com um certo modismo. O que houve com o funk carioca, que entrou na novela é inegável. Não sei se falta a moda querer ou as pessoas saberem que o movimento Faverock existe e que as bandas estão aí”, avalia Mariana.
Se é som de preto e de favelado é também rock brasileiro, que revela uma outra cara da periferia. ”É um movimento muito sofisticado, que não se enquadra em estereótipos, mas que tem participantes, que são verdadeiros príncipes, no sentido mais burguês da palavra”, conclui a educadora musical, Márcia Guerra.
Francismar Lemes
Reportagem Local